Chico Science, um caranguejo com cérebro



A última quinta-feira, dia 02 de fevereiro, foi uma data importante, não para comemorar, mas para lembrar: a morte de Chico Science completou 15 anos. Francisco de Assis França de nascença, Chico Science foi um cantor e compositor pernambucano que chacoalhou a cena musical nacional.

No início dos anos 1990, junto à Nação Zumbi - banda formada por Jorge dü Peixe, Lúcio Maia, Dengue, Toca Ogan, Gilmar Bola 8, Canhoto e Gira - Chico Science propôs uma mistura de rock, maracatu, punk e música eletrônica e chamou ao resultado de Manguebeat. Outros músicos já haviam feito misturas semelhantes, mas foi com Chico Science & Nação Zumbi que os elementos regionais foram catapultados para todos os cantos do País.

O músico faleceu em fevereiro de 1997, vítima de um acidente de carro, numa estrada que liga Olinda a Recife. A banda deixou apenas dois discos, "Da Lama ao Caos" e "Afrociberdelia", mas seu legado é imenso, considerando a influência que foi e ainda é para a música brasileira.

"Maracatu Atômico", cujo videoclipe você vê abaixo, foi um dos maiores sucessos da banda:



Confira também o manifesto "Caranguejos com cérebro", uma espécie de 'release' - texto de apresentação - escrito por Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A, que ganhou crítica e público e abriu caminho para a música e idéias de Chico Science e para o que ficou conhecido como movimento Manguebeat.

Mangue, o conceito
Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo.

Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação para dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente importantes dependem do alagadiço costeiro.

Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.

Manguetown, a cidade
A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade *maurícia* passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais.

Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de *progresso*, que elevou a cidade ao posto de *metrópole* do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.

Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada a permanência do mito da *metrópole* só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.

Mangue, a cena
Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo era engendrar um *circuito energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.

Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.

Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown.

Fonte: TDM.

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