O homem que registrou as origens do punk


Testemunha ocular e personagem central da história do punk inglês, o cineasta, DJ e músico britânico Don Letts, de 52 anos, é um dos homenageados da edição 2012 do In-Edit Brasil - Festival Internacional de Documentário Musical, que começou na última sexta-feira. Além da presença do realizador, quatro de seus documentários integram a programação: "The Punk Rock Movie" (1978), "The Clash - Westway to the World" (2003), "Punk: Attitude" (2005) e "Rock'n'Roll Exposed - The Photography of Bob Gruen" (2012).

De ascendência jamaicana, Letts foi responsável por parte substancial de educação musical daqueles que fizeram parte da primeira geração punk na Inglaterra, no final dos anos 1970. Como DJ do lendário clube Roxy, apresentou àquela garotada o que se fazia musicalmente na ilha caribenha.

"Tudo aconteceu por acaso. O Roxy era um ponto de encontro punk, mas ainda não havia discos do gênero lançados. A cena estava apenas começando no Reino Unido. Eu, então, tocava a música que sempre amei, o dub reggae", diz Letts. As poderosas linhas de baixo e o discurso rebelde de filiação rastafári conquistaram os integrantes de bandas que mudariam os rumos da música pop. Tanto que Bob Marley (1945-1981), em passagem por Londres, quis conhecer mais sobre essa turma e foi elucidar as dúvidas com o DJ. Introduzido por Letts ao universo punk, um dos maiores artistas do século 20 compôs "Punky Reggae Party".

Em paralelo à atividade de DJ, Letts passou a registrar, com duas câmeras 8mm, os passos iniciais de bandas como Sex Pistols, The Clash, Generation X, The Slits, Siouxsie and the Banshees, X-Ray Spex, entre outras. Dos registros nasceu seu filme de estreia, "The Punk Rock Movie" (1978). Com o amigo John Lydon, ex-Johnny Rotten, dos Sex Pistols, viajou para a Jamaica no final dos anos 1970, mas foi com o The Clash que Letts teve uma relação mais estreita e produtiva. Ele é o rasta que aparece na capa do álbum "Black Market Clash" (1980). Também é parceiro do guitarrista Mick Jones na banda Big Audio Dynamite, o BAD, após sua saída do Clash. Pela direção de "The Clash: Westway to the World", ganhou o Grammy de melhor documentário musical em 2003. Já "Strummerville", de 2010 - que não faz parte da mostra -, presta um tributo sincero à memória do cantor Joe Strummer, morto em 2002.

"Joe sempre me inspirou muito. Ele era da mesma estirpe de Woody Guthrie, Bob Dylan, John Lennon e Bob Marley. A cultura pop estaria bem melhor se pessoas assim tivessem mais visibilidade. Infelizmente, nos dias de hoje, a possibilidade de gente dessa magnitude sair do anonimato tem sido cada vez menor", afirma Letts, que já direcionou lentes documentais aos trabalhos nomes como Sun Ra, George Clinton e Elvis Costello.

Perguntado sobre a volta do BAD, que encerrou as atividades nos anos 1990 e retornou à estrada em 2011 - foi um dos destaques da edição daquele ano do festival americano Coachella -, Letts responde com gracejos.

"Pode culpar a nossa crise de meia-idade pelo retorno do BAD. Se bem que ressuscitar a banda é mais seguro que comprar uma daquelas motos gigantes", diverte-se. O BAD fez shows no Brasil em 1987. Da visita, Letts lembra de uma curiosa foto de jornal. Segundo ele, o periódico trazia a imagem de um delegado de polícia jogando um disco da banda na privada. "Ele tinha ficado furioso com 'Sambadrome', uma música nossa sobre um famoso traficante carioca [José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, morto em 2004] que fugiu do presídio de segurança máxima em um helicóptero."

E o que é o punk hoje, Letts? "O punk é uma atitude que sempre se renova. Basta ter raiva o suficiente e boas ideias para fazer parte dela", afirma o músico.

Mostra Don Letts (In-Edit Brasil - Festival Internacional de Documentário Musical)

Dia 7, às 21h, no CineSesc (r. Augusta, 2.075; R$ 4); "The Punk Rock Movie" e encontro com o diretor.

Dia 8, às 20h30, na Cinemateca Brasileira (largo Senador Raul Cardoso, 207; R$ 8); "Rock'n'Roll Exposed: The Photography of Bob Gruen": dia 9, às 18h30, na Cinemateca Brasileira (R$ 8); discotecagem: dia 10, às 17h30, na Cinemateca Brasileira.

Fonte: Valor.

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